segunda-feira, 7 de março de 2016

O Musiclown - Grupo Bagagem de Teatro



     No último domingo, dia 6 de março de 2016, estive na estreia do Grupo Bagagem, dentro do projeto Maranguape Encenas. 
    O espetáculo apresentado, "O Musiclown", é uma divertida comédia onde professor e aluno descobrem o valor da amizade em meio a uma aula e música.
       Com um texto de construção própria do grupo, e direção de Anthony Lobo, "O Musiclown" expõe de forma lúdica e acessível, a discussão sobre gostos musicais, disciplina, responsabilidade e amizade.
      Durante uma hora de espetáculo, a plateia tem oportunidade de interagir com os clowns. Seja através das palmas para marcar o ritmo das músicas ou mesmo com os gritos das crianças para denunciar as peripécias de Pillo - o aluno. 
    "O Musiclown" é uma ótima oportunidade para os atores Pristley Pereira e Anderson Costa mostrarem versatilidade artística na dança e música - que eles mesmos executam durante o espetáculo.
        Quem pôde assistir concordou que, mesmo com as poucas palavras proferidas pelos clowns, não foi nem um pouco difícil entender a mensagem do espetáculo: cultivar o amor pelas amizades.
        O espetáculo do Grupo Bagagem de Teatro estará em cartaz nos dias 13, 20 e 27 de março, na Sociedade Artística Maranguapense, Sempre em duas sessões: 18h30min e 20h. 

O bardo cantará muitas músicas sobre o Musiclown. E ainda usará flauta e bongô em algumas delas.


       


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

The Walking Dead - A Ascensão do Governador




A franquia de zumbis mais celebrada da década acaba de conquistar um novo universo. Inspirado na série de quadrinhos best-seller do New York Times — publicada desde 2003 e vencedora do Eisner Award —, que originou o bem-sucedido seriado de TV homônimo, The walking dead: A ascensão do Governador, primeiro volume de uma trilogia, narra a origem de um dos mais perversos personagens da ficção. Criador dos quadrinhos e um dos produtores do seriado que já bateu diversos recordes de audiência nos Estados Unidos e foi finalista em várias categorias no 68º Golden Globe Awards, incluindo Melhor Série Dramática de TV, Robert Kirkman é co-autor deste romance com o veterano do gênero de horror Jay Bonansinga. O livro apresenta aos leitores um novo núcleo de personagens — já bastante conhecido dos fãs das HQs e que deve despontar em breve nas próximas temporadas da série, exibida no Brasil pela Fox.

No mundo de The Walking Dead não existe vilão maior do que o Governador, o déspota que comanda a cidade de Woodbury. Com seu senso doentio e muito particular de justiça, ele força prisioneiros a lutarem contra zumbis em uma arena, para delírio dos moradores entediados. Também não é incomum vê-lo dilacerar as entranhas daqueles que cruzam seu caminho. Eleito pela revista americana Wizard o “vilão do ano”, ele é o personagem mais controvertido em um mundo dominado por mortos-vivos.
Agora, os fãs irão descobrir como ele se tornou esse homem e qual a origem de suas atitudes extremas. Para isso, é preciso conhecer a história de Phillip Blake, sua filhinha Penny e seu irmão Brian. Junto com dois grandes amigos, eles formam um grupo de resistência nada comum. O objetivo é cruzar o estado da Geórgia, percorrendo os 30 km que separam Waynesboro de Atlanta. A missão aparentemente simples é na verdade um desafio: estamos no meio de um apocalipse zumbi.
As cidades foram abandonadas, os meios de comunicação estão mudos e o único som do universo são os gemidos incessantes de seres que um dia já foram humanos. Lutando para encontrar comida, armas e esconderijos seguros, os cinco vão enfrentar um cenário de completa desolação a caminho do mítico centro de refugiados. A única certeza de Phillip é a de que fará tudo para salvar sua família. Quem sabe assim também consiga salvar a própria alma.
Com um desfecho surpreendente, a trama revela novos elementos e fornece aos leitores pistas para compreender melhor os personagens e preencher algumas lacunas do enredo com as peças que faltavam.
***
A estrutura da narrativa mostra-se diferente tanto do que é apresentado nos quadrinhos quanto o que vemos na série da FOX. Isto porque a história é contata em loops. Alguns elementos do dia-a-dia do grupo de sobreviventes acabam ativando flashbacks. Estas lembranças então são usadas para ancorar e justificar certas reações no grupo. Este recurso é muito bem vindo pois não permite que a narrativa adquira um caminho muito linear. Mas este é um estilo que deve bem muito bem conduzido, evitando os picos de anti-climax. 
Vários pontos internos à história podem ser ressaltados aqui. Mas pontos interessantes são algumas falas de personagens que levam a crer que eles conhecem muito mais a cerca do mecanismo de criação dos mortos-vivos do que o que temos no caso do grupo de Rick e Lori. 
Outro aspecto que poderá levar ao interesse dos fãs do gênero "Apocalipse Zumbi" e em particular aos seguidores de "The Walking Dead" é que a história começa a ser contada de um ponto mais bem localizado que no caso de Rick. aqui, sabemos que a "praga" na região,  tem por volta de cinco dias. E ao longo da insólita viagem para Atlanta, os personagens se deparam com incêndios, acidentes e saques recentes. para se ter uma idéia, a rede elétrica ainda funciona e os canais de TV transmitem (mensagens de emergência é bem verdade). 
Vale a pena ler este livro? Sim. E existem vários motivos que justifiquem esta ação. Primeiro: é uma linguagem diferenciada para contar histórias de um mesmo universo ficcional. O mundo de The Walking Dead foi inicialmente construído sobre o alicerce dos quadrinhos. E quadrinhos lembram o cinema mudo a partir do momento em que tem que se utilizar de uma maior expressão visual para comunicar ao público os sentimentos propostos. Segundo: não é mais do mesmo. Centralizado num núcleo de personagens diferenciado, o livro é capaz de oferecer visão complementar do apocalipse inicialmente fisico e, que após durar uma semana, desemboca no apocalispse moral. E como é sempre bom lembrar: os zumbis são coadjuvantes no cenário the Walking Dead. A crise moral que se segue é a cereja do bolo. Terceiro: é uma mídia que instiga a imaginação. Mesmo contaminada com os estímulos das HQ's e da TV, a imaginação ainda pode ser exercitada e os autores, reconhecendo esta "limitação" do livro, partem para descrições gerais, acreditando que o leitor já tenha tido contato com o universo The Walking Dead através das mídias mais visuais. 

O Bardo cantará muitas canções sobre este livro. Mas bem baixinho, para que nenhum zumbi possa ouvir.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Silêncio dos Inocentes



A história do assassino serial Hannibal Lecter ganhou projeção mundial a partir do filme O Silêncio dos Inocentes, de 1991. No filme, Jodie Foster e Antony Hopkins, nos papéis de Clarice Starling e Hannibal Lecter travam uma relação pai-filha, professor-aluno, médico-paciente enquanto um assassino serial (Buffalo Bill) precisa ser detido antes de matar sua sexta vítima.
O filme é um clássico, ganhando até mesmo o título de  "culturalmente, historicamente e esteticamente" importante pela Biblioteca do Congresso e foi escolhido para ser preservado no National Film Registry em 2011.
Fiquei curioso para ler o romance original. O livro de Thomas Harris, lançado em 1988 é o segundo da série que foi aberta com o Dragão Vermelho (1981).
A leitura dO Silêncio dos Inocentes é bastante fluida e de cara é possível perceber porque o filme ganhou Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. O que vimos no cinema é suficientemente fidedigno para não comprometer a narrativa. Mas é importante notar que vários elementos do livro não estão presentes na obra escrita.
A profundidade da relação Starling-Lecter é bem maior no livro. A "terapia" que ele conduz revela coisas sobre o passado de Clarice que não puderam ser exploradas no filme por simples questões de tempo.
Outra diferença é em relação ao assassino Buffalo Bill. No livro, sua ação, embora extremamente criminosa fica melhor "justificada" e esta tal justificativa é bastante convincente.
Thomas Harris trabalhou durante muitos anos como repórter policial e isto deu ao mesmo, conhecimento tanto do jargão técnico quanto das girias internas dos serviços de pesquisa forense. Mas o mais admirável é o cenário psicológico que Harris consegue criar. Muito hábil com as palavras, ele sabe criar suspense entre os capítulos. Outra característica do autor, é a capacidade de permitir que o leitor também possa tirar suas conclusões de certas intenções das personagens.
A experiência de ler um livro, que originou um filme tão emblemático é bastante interessante. Obviamente que as imagens das personagens ficam contaminadas com a memória visual já estabelecida. E algumas vezes lembrei de um comentário que alguns professores de linguas estrangeiras utilizam: seu maior entrave no aprendizado de outro idioma é sua lingua original. E foi um pouco disto que senti. Ficava esperando que certos acontecimentos se desenrolassem com a mesma velocidade e intensidade que no filme, o que era um erro. Acabei descobrindo a atração por uma leitura mais descompromissada com minha memória, onde pude ver as personagens por ângulos que o filme não pôde explorar.
Assim, mesmo para quem já conhece bem o olhar frio e distante do Dr. Lecter, através da brilhante interpretação de Antony Hopkins (Oscar de Melhor Ator, 1992), não deixem de experimentar esta leitura que é igualmente instigante. É fascinante deixar-se apreender por palavras e sentir o frio na barriga nas páginas finais,

O bardo sente prazer em cantar muitas canções sobre a Mariposa da Morte.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Resenha: Quando me amei de verdade...


M429q
McMillen, Kim
Quando me amei de verdade/ Kim McMillen & Alison McMillen Rio de Janeiro, Sextante, 2003.
Tradução de: When I loved myself enough
87 pag.

     Este é um pequenino livro. Perfeito para caber na bolsa. Ele me lembrou bastante o Minutos de Sabedoria de C. Torres Pastorino, editado pela Editora Vozes. Fiz esta associação tanto pelo tamanho diminuto (embora o Minutos seja ainda menor), quanto pelas pílulas de sabedoria que eles tentam passar.
        Quando me amei de verdade é, essencialmente, um livro sobre o amor. Mas este amor, está muito mais evidente na proposta do livro no que em seu conteúdo em si.
        Os pensamentos expostos nas páginas retratam as percepções de Kim McMillen, que morreu poucos meses antes da publicação deste livro. Mas poderíamos alimentar a seguinte dúvida: Kim morreu poucos meses antes da publicação ou a publicação ocorreu poucos meses após sua morte? 
         A mensagem de amor que o livro nos dá, não se encerra nos pensamentos da autora, mas na ação de reunir tais pensamentos que estavam muitas vezes dispersos, escritos nas cadernetas de compras de uma mulher de 52 anos de idade. Alison McMillen, a responsável por esta ação de reunir os escritos de sua mãe, fez isso como uma forma de homenageá-la por sua forma simples e otimista de encarar a vida e, principalmente, de reconhecer a necessidade de amor próprio.
         É um livro sobre otimismo. Nenhum pensamento exposto aqui é essencialmente, complexo. Nada é profundamente filosófico mas, se pudermos parar um pouco para verificar as pequenas verdades nos 78 pensamentos de Kim, talvez possamos reconhecer o que há de universal em todos nós, independente de se ter 14 anos de idade ou ser uma mulher divorciada, de meia idade e de vida aparentemente comum. 



O Bardo cantará três canções sobre este livro. Canções sobre se amar de verdade.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Autor: Carl Sagan


     Carl Edward Sagan (09/11/1934 - 20/12/1996) foi um astrônomo estadunidense. Também foi um astrofísico, cosmologista, divulgador da Ciência. Foi um dos mais populares cientistas do Século XX. Publicou mais de 600 artigos científicos. Foi co-autor ou editor de mais de 20 livros. Defensor do ceticismo e do método científico. pioneiro na exobiologia, foi também um importante incentivador da busca de vida extraterrestre.
         Muitas das contribuições científicas de Sagan foram fundamentais para a determinação da temperatura da superfície de Vênus. Nos anos 60 ninguém conhecia muito bem as condições da atmosfera daquele planeta. Sagan listou várias possibilidades que foram publicadas no livro Planets. Ele lançou um cenário seco e quente, em contraponto ao aspecto paradisíaco que muitos acreditavam. Ele investigou as emissões de rádio do planeta e estimou a temperatura da superfície em 500° C. Como cientista visitante do Laboratório de Jato Propulsão (JPL), ele contribuiu com a primeira missão Mariner para Vênus. Trabalhando no projeto e gerenciamento do projeto. A Mariner 2 confirmou suas projeções a respeito das características da superfície de Vênus, em 1962.
         Sagan foi o primeiro que sugeriu que a lua Titã poderia ter um oceano de compostos líquidos em sua superfície e que a lua Europa pudesse ter água abaixo de sua superfície. Isto daria a Europa um potencial para colonização. O oceano subterrâneo de Europa foi parcialmente confirmado pela sonda Galileo. os mistérios de Titã também foram resolvidos com a ajuda de Sagan. 
           Podemos apontar também as contribuições para o entendimento das estações de Marte. 
      Sagan foi um dos maiores defensores da busca por vida extraterrestre. Tendo conduzido várias pesquisas para comprovar a possibilidade de fabricação de aminoácidos à partir de radiação em moléculas orgânicas.
         Carl Sagan tinha muita habilidade em convencer as pessoas a ter um melhor entendimento do Cosmos. Ressaltando a pequenez da Terra e do próprio homem frente a imensidão do Universo.
        Ele produziu, a partir de 1977, uma série de TV - Cosmos: uma jornada pessoal.Cosmos abordava desde a teoria científica da Origem da Vida até a perspectiva filosófica sobre nosso lugar no Universo. Em 1980 a série Cosmos ganhou o Emmy. Tem sido desde então exibida em mais de 60 países e já foi vista por mais de 500 milhões de pessoas.
         Sagan morreu de pneumonia, em decorrência de complicações de seu quadro de câncer. Ele tinha 62 anos de idade.

Principais Publicações


     

O Bardo sempre tem boas canções sobre Carl Sagan.

Resenha: Ilha das Flores



Ilha das Flores -1989
Direção: Jorge Furtado.
Roteiro: Jorge Furtado.
Categoria: Documentário

     Este documentário mostra o cotidiano de habitantes da Ilha das Flores: um lixão na cidade de Porto Alegre - RS.
      Vencedor de nove prêmios no Festival de Gramado (1989), ganhador do Urso de Prata do festival de Berlim (1991). O filme usa linguagem onde denotamos extrema ação, conceituação e abordagem cheia de referências cíclicas, mostrando a forma subumana que habitantes do lixão se encontravam.
     Quando em exibição livre, alguns expectadores sentem-se incomodados com o estilo da técnica narrativa e acabam por atribuir um caráter infantil a forma de comunicação deste curta. Não fosse uma tônica bem humorada que pontua e faz contraponto entre imagens e o texto narrativo em si, a aceitabilidade desta obra estaria comprometida. O que beneficia "Ilha das Flores" e o torna atrativo a vários públicos é a sua curta duração, trazendo o expectador rapidamente para o núcleo polêmico da discussão filosófico-social da humanidade. Ainda assim, o filme é cheio de lacunas, que deverão ser preenchidas com as devidas associações ontológicas, além da busca por solução para a problematização da conceituação de "Liberdade".
     Bem no início, o filme delimita o universo em que a narrativa transcorre. Quando a frase "Deus não existe." surge, temos certeza de uma abordagem crítica à religiosidade. Diria que não só existe uma margem aos questionamentos às Teogonias, mas uma ênfase aos aspectos políticos, econômicos e sociais que envolvem as personagens. isto se torna marcante quando, no decorrer da película, a exposição objetiva nos guia para a ciência das injustiças humanas geradas pela influência das várias esferas de atuação dos homens.
     Numa conferência em 11 de maio de 1996, Carls Sagan falou dos seus pensamentos sobre a histórica fotografia do Planeta Terra, obtida a partir da Voyager I, quando a sonda estava a 6,4 bilhões de quilômetros de distância: "Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portarmos mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o ponto azul pálido, o único lar que tenhamos conhecido." [1]. Sagan tem a opinião de que a pequenez do homem não é suficiente para aplacar sua arrogância que acaba gerando situação de autodestruição da humanidade. E não haverá intervenção externa que possa nos salvar. Os homens é que precisam aceitar a condição de mantenedores da própria humanidade. 
     Com a determinação que circunscreve a ação, teremos a disposição a interpretação geográfica, moral, ética, econômica, política e até religiosa. Quando o filme nos mostra o lugar onde ocorre a história, temos linguagem moderna, dado seu aspecto científico: as coordenadas geográficas.Isto nos oferece noções de exatidão e precisão. Descrevendo os personagens envolvidos com pouca personalização, sempre apontando caráter humano mais generalistas. 
O que percebemos é o uso bastante recorrente da corporeidade, que se apoia na ideia física do existir, através da manifestação biológica dos seres. Tal recurso cartesiano imprime ao curta um aspecto mais formal. Uma vez revestido com esta defesa de modelo conceitual, ao final oferece-se como instrumento objetivo para futuras discussões em seu conteúdo e não em sua forma.
Obviamente o filme não se constitui essencialmente "universal" em seu conteúdo narrativo. Fato este que é compensado com a extrema ação de conceituar os elementos expostos. Isto possibilita tornar maior, o horizonte de audiência potencial, passível de ser afetado com a proposta do diretor. 
O que permeia "Ilha das Flores" é o tom irônico da ideia da superioridade humana. Isto fica muito evidente quando o texto insiste em nos informar que os aspectos principais que tornam os humanos distintos dos outros seres são as presenças do "telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor". Estes aspectos de diferenciação entre humanos e demais animais se encaixam na categoria Corporeidade e as derivações que se seguem, tangenciam as categorias de Alteridade, Transcendência e Subjetividade. 
Após a apresentação do cenário complexo e humanos simplificados, o expectador passa a receber explicações sobre os elementos que brotam com extrema velocidade. É importante ressaltar aqui que a estrutura do filme sugere que este expectador não seja humano. Um extraterrestre, talvez.
        A constante conceituação presente em todo o tempo nos ajuda a perceber o campo semântico empregado por Jorge Furtado, útil para as definições de "dinheiro" e "propriedade-dono".     
        A "bondade" que o dono dos porcos tem em permitir que cada grupo de humanos permaneça, por 300 segundos, dentro de seu terreno, para escolha de material de origem orgânica, surge porque seus porcos já tiveram vez naquela tarefa.
         A obtenção de bens está ligada a troca de valores, mais exatamente, dinheiro. Tal prática se tornou acessível com a liberação do lucro na Idade Moderna. Se o problema das mulheres e crianças da Ilha das Flores fosse somente a falta de dinheiro, isto as colocaria em pé de igualdade com os porcos, visto que eles também não possuem este bem. Lembremos, no entanto, que é a "falta de dono" que faz a diferença neste e em muitos outros casos.
          O "dono dos porcos" é o cuidador dos porcos. Ele provê abrigo e alimentos selecionados. Assim, os humanos, que não possuem dono, na verdade não possuem cuidador. É a ligação com a frase inicial: Deus não existe. Desta forma, sem alguém para prover abrigo e alimentos para os humanos da Ilha das Flores, estes se situam depois dos porcos, na hierarquia de prioridade de escolha de alimentos.Acabamos então por aceitar que, a diferenciação biológica que os humanos possuem não é capaz de lhes dar supremacia sobre os porcos do lixão.
       Quando o conflito está exposto, a linguagem do filme migra para aspectos mais subjetivos. A Liberdade aparece como um novo fator de diferenciação entre homens e demais seres.
Entendo por liberdade, a capacidade que os humanos tem de se descondicionar, em contracorrente aos instintos ou ao peso do modelo social. mas como esta liberdade individual permeia cada componente da humanidade, isto a invalida como diferencial interno. As tensões sociais surgem apoiadas na disputa pela Liberdade, sim. Mas tal alcance é expandido ou retraído conforme os elementos de suporte para cada pessoa. Tais elementos são manifestações de Poder.
 Ao final, o filme assume um caráter poético complementando o clima clássico e heróico do tema que ouvimos ainda na abertura: trecho da Ópera Il Guarany, de Carlos Gomes. Reafirmado no pensamento de Cecília Meireles, que é trecho do texto Romanceiro da Inconfidência: "Liberdade - essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!"




O bardo cantará cinco canções sobre este vídeo.

            
           

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Resenha: Dicionário Filosófico - Voltaire



Dicionário Filosófico, Voltaire
Título Original: Dictionnarie Philosophique.  Copyright desta Tradução: Editora Martin Claret, 2006.

Sinopse

     Voltaire, um dos filósofos mais influentes de seu tempo, escreveu abundantemente: a primeira edição de suas obras completas tem setenta volumes. Entre elas, algumas obras-primas. 
     Com o célebre Dicionário Filosófico (1764), Voltaire se aproxima dos enciclopedistas, salvo no tocante as teorias estéticas, em que sempre se manteve classicista. Esta obra foi traduzida para quase todas as línguas.
     Voltaire detestava a Igreja Católica e todas as formas de intolerância, mas não era ateu. Defendeu a burguesia contra a aristocracia feudal e antecipou a Revolução Francesa.

- 

      Este é um dicionário concebido e escrito de forma não linear. Os verbetes expandem-se e muitas vezes já assumem o caráter idéia completa a ser desenvolvida pelo filósofo. Como exemplo, posso citar o conceito de Espírito, que é dividido em seis seções. 
      Diferentemente de um dicionário comum, neste trabalho, Voltaire valida todo um sistema de pensar. As definições que existem no livro, se complementam e oferecem ao leitor um retrato do pensamento iluminista.
      Eu, particularmente, gosto da maneira como as ideias são apresentadas. A forma de escrita é leve e, se eventualmente, algum termo isolado não ficar suficientemente "definido", o complemento da leitura poderá oferecer a visão do sistema filosófico geral, facilitando as interpretações.
      Mais do que um estudo semântico, o Dicionário Filosófico é uma fonte de desconstrução da superstição e religiosidade dogmática. Cheio de um humor tido como agressivo, pelos mais devotos, este livro funciona para leitores não apaixonados pelos ditames católicos.
      Voltaire rebaixa muitos textos bíblicos à condição de meras fábulas de pastores hebreus. E resume seu pensamento religioso quando expõe os conceitos de Catecismos chinês, japonês e "do pároco". 
      É um excelente livro para se apreender o cerne do Iluminismo. É o início à critica ao pensamento Religioso Medieval.

         
O Bardo cantará cinco canções para este livro.    
      

sábado, 16 de junho de 2012

Resenha: A Ilha do Dia Anterior


Eco, Umberto, 1932 -
E22i
A ilha do dia anterior / Umberto Eco ; Tradução
Marco Lucchesi. - Rio de Janeiro : Record, 1995
ISBN 85-01-04231-5
Título Original: L'ISOLA DEL GIORNO PRIMA
492 páginas.

   
     Eu começo a ler pelo começo do livro e isto inclui as Notas do Autor e do Tradutor (quando é o caso). E neste edição de A Ilha do Dia Anterior, da Editora Record, é fundamental para o entendimento da obra, a captura das percepção de Marco Lucchesi a respeito do processo de tradução e adaptação do texto.  
     Umberto Eco é sempre um desafio. O próprio tradutor admite isto quando cita o intenso trabalho de pesquisa em obras que serviram de fontes para o autor. Era a pesquisa para identificar quais delas tinham versões em português dos séculos XVII e XVIII. Era um "reexame das soluções encontradas".
     Desta forma, temos que buscar uma preparação psicológica para sermos conduzidos por uma narrativa histórica construída com regionalismos e neologismos pessoais ou históricos. Detalhes ortográficos, concatenação de termos, acentuação e pontuações também oferecem um "charme" próprio. 
     O livro não oferece uma "nova" gramática portuguesa mas, se nos referenciarmos por Camões, por exemplo, teremos uma amostra de termos e regências em desuso e que geram alguma estranheza ao leitor menos acostumado aos clássicos portugueses.
      A história se passa pelo século XVII. Aqui, temos que levar em consideração todo o peso do confronto Ciência x Religião que crescia na Europa. A península Ibérica aderiu muito fortemente aos ditames da Inquisição, em contrapartida, França e Inglaterra corriam por fora, em busca da supremacia tecnológica.
      Assim, em plena expansão colonial, quem detivesse as melhores ferramentas de navegação, suplantaria as nações inimigas. E o pano de fundo da história de Roberto de la Grive é justamente esta corrida expansionista.
   Roberto é o protagonista e narrador de acontecimentos sabidamente históricos e de eventos fantasiosamente suspeitos. Ele vive a paranóia de ser perseguido por um irmão gêmeo do qual somente ele tem conhecimento da existência.
    O sentimento da presença deste  irmão gêmeo "bastardo", chamado Ferrante é sentida em quase qualquer lugar onde Roberto esteja. Desde a guerra em Casale, até os corredores do cardeal Richelieu, este seu gêmeo "maligno" atua para tentar tomar o seu lugar na sociedade.
      Quando se vê náufrago, Roberto passa a ter tempo para pensar sobre suas percepções sobre si mesmo. Durante algum tempo, ele pôde pensar nos amores e temores de sua vida. Aos poucos ele passa a reconhecer o perseguidor Ferrante como sendo parte importante dele mesmo. Mas isso será uma redenção ou maldição?
     A ilha do dia anterior, nos mostra poderosos paradigmas religiosos e científicos da Era da Expansão Mercantilista e nos prova que para vencer uma guerra, seja ela uma disputa pessoal ou contra Impérios  devemos conhecer muito mais do que as fraquezas dos inimigos, temos que reconhecer as nossas limitações.
 
   
O Bardo cantará cinco canções sobre este livro.

Resenha: Ao Cair da Noite, Stephen King




K64a
King, Stephen
Ao Cair da Noite / Stephen King /; Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
Tradução de: Just After Sunset, 398p.  ISBN 978-85-60280-89-6


     Este é um daqueles livros que, por ser coletânea de contos, acaba oferecendo um maior campo para sondarmos o estilo do autor. E no caso de Stephen King, escritor consagrado, isto tem um gostinho especial para o leitor. 
     A estrutura do livro oferece uma excelente variação de enredos. Temos o horror clássico, através do conto N. e nuances de romantismo e nostalgia (com cores melancólicas) na estória de Willa, por exemplo. Com 398 páginas, considero um livro de fácil leitura e suficientemente dividido para entreter durante uma espera na ante-sala de consultório de dentista ou mesmo em uma ponte aérea. 
      Mas, começando do começo...
    O grande diferencial deste livro de Stephen King está dividido em dois pontos de foco: Introdução e Notas do Cair da Noite.
     Na Introdução, o autor oferece uma nova história, sobre como os contos foram reunidos nesta coletânea e como o projeto do livro em si, ganhou força junto a sua editora.
    Eu, como leitor, gosto de imaginar o que o autor valoriza, nas etapas que compõem a construção de sua obra. Desde o conceber e delinear dos personagens ao organizar da linha temporal de acontecimentos, o controle do processo é fundamental para minimizar ou mesmo evitar problemas de incoerência ou descontinuidade. 
      Nas Notas do Cair da Noite veio a grande sacada.
     No final do livro, o autor explica como veio a ideia para escrever cada um dos contos. É uma joia para quem busca compreender o dito processo criativo. Mas o que encontrei, lendo as notas, foi o cotidiano nu e cru, fornecendo estímulos em nível comum. Desta forma, há uma valorização da mente criativa do autor. 
     Para os fãs de Stephen King, este é um livro que pode desagradar. Como os temas dos contos possuem muita diversificação, será difícil agradar a todos todo o tempo. Eu, que já li vários livros do autor, encontrei dificuldades com alguns dos contos. Principalmente os que não estavam exatamente dentro da linha terror-horror, acabam tendo um ritmo mais lento que, certamente, irá desencorajar alguns leitores a manterem a mente fixa na estória. Desta forma, percebi o livro meio como uma montanha russa do meu interesse.
     Mas, em se tratando de estrutura de narração, o Sr. King continua usando spoilers para prender nossa atenção e jogando com reviravoltas mirabolantes para resolver os coflitos expostos. 
     Uma observação especial vai para o conto N. que considero até agora a estória mais "Lovecraftiana" que Stephen King contou. É extremamente nítida a associação entre o enredo de N. e de Call of Cthulhu ao ponto de causar certa decepção. Muitos podem associar como uma nova leitura do clássico de H.P. Lovecraft. Eu, contaminado pelos mitos de Cthulhu, tive ler de forma resignada para poder extrair do conto, sua essência. Se tratado de forma independente, N. é um grande (extensão e profundidade) conto.
    Ao Cair da Noite realmente funciona como entretenimento. E é ótima opção para as pessoas que preferem estórias curtas. O menor conto (Tarde de Formatura) possui 7 páginas e o maior (N.), 57 páginas.


            
O Bardo cantará  três canções sobre este livro.
     


Resenha: Faça você mesmo a sua Macumbinha


Faça você mesmo a sua Macumbinha
Orphanake, João Edson
Editora Orphanake/ Editora Pindorama/ Tríade Editorial 32ª Edição

     Este é um livro paradoxal em si mesmo. Meu primeiro contato com ele foi nos idos de 1990 . A proposta básica do autor é reviver a "magia" no tempos de nossas avós. E isso compreende muita superstição ou mesmo ciência mal interpretada. 
     O livro é cheio de referências às religiões africanas e desenvolve um sistema de práticas pouco formais e realmente já em bastante desuso. 
     Eu acredito que sua disseminação poderia ocorrer no âmbito de uma coletânea de práticas tradicionais e não exatamente como referência para terapias. 
     Vale como fonte de pesquisa e referência sobre práticas ocultistas populares. 
     Felizmente, a população está cada vez mais crente na medicina alopática. E a farmacopeica química tem entrado até mesmo no hall das profissões ditas "da moda".
     Mas se você quiser "Encontrar alguém que tenha feito o mal" ou mesmo fazer uma "Oferta à Pomba Gira das Almas", este livro é o ideal. Com seu caráter extremamente prático, valendo-se somente da subjetividade dos Orixás, é um manual de benzimentos, emplastros e chás.   

   

   O Bardo cantará uma canção sobre este livro.

O início das novas anotações


      Acho que posso dividir minha vida como leitor em três momentos. Ou melhor, em três momentos e meio.
     No princípio das Eras, eu era a típica criança leitora de quadrinhos do Mickey e Tio Patinhas. Era uma leitura simples e de certo modo divertida. Gastava meu rico dinheirinho em novas revistinhas, mas comecei a me preocupar seriamente com o fato de que elas simplesmente acabavam muito rapidamente. E uma vez morando em Maranguape, não existiam muitas opções a disposição nas bancas de revista da cidade. Num primeiro momento restava a opção de reler tudo aquilo, mas depois, sinceramente, era altamente tedioso fazer aquilo depois de decorar cada fala e a disposição dos balões em cada página.  Este foi meu primeiro momento como leitor. O que poderia chamar de "Fogo em Magnésio Metálico" - Intenso e pouco duradouro. 
     Já dentro do esquema do 1° Grau, a cada semestre pingava um livro para-didático. E tome a coleção Vaga-Lume e depois os clássicos da literatura: Senhora, O Ateneu, O Garimpeiro ou mesmo El Cid. Era a fase como leitor por obrigação. O peso de preencher a famigerada ficha de leitura. A nota bimestral. Pouco aproveitei deste período.
     Em 2001 entrei na minha atual fase de leitor. Já com 23 anos de idade, tendo tido contato com a literatura técnico-acadêmica, passei a buscar em novos livros, o espaço de entretenimento que em muitas pessoas é totalmente preenchido por jogos eletrônicos ou redes sociais. Àquele tempo, eu não tinha estes recursos de diversão e precisava da leitura por conta do fácil acesso e companhia em minhas intermináveis viagens de ônibus entre Maranguape e Fortaleza. 
     Foi a oportunidade para colocar a mina mente científica para relaxar um pouco. Obviamente não aboli meu senso de criticidade ou mesmo de ceticismo, mas tanto tempo afastado da música e da fotografia estava me deixando um pouco mais frio e distante em relação ao meu padrão de sociabilidade. 
     A retomada aconteceu quando entrei na "vibe" do Stephen King. Devorava os livros em poucos dias, mas acabava buscando sempre novos alimentos da mesma fonte. Foi verdadeiramente uma saturação. 
      Cansei! Parei!    
    Quando dividi em três momentos e meio para falar sobre minha relação com a leitura foi justamente porque após a "stephenkingzação" dos meus conceitos literários houve uma gradual mas, contínua, libertação e equalização de meus interesses.
    Hoje não possuo nenhuma Biblioteca nível 4, mas tenho adquirido sempre novas aquisições para preencher meu tempo já bastante preenchido e fico muito satisfeito em poder visualizar os livros de uma forma muito mais vertical do que no início de minha carreira como leitor.
     Aqui, neste blog reativado, farei algumas anotações sobre o que percebo sobre principalmente livros. Neste primeiro momento não tenho um gênero literário específico para tratar. Aqui poderemos encontrar a resenha de um livro técnico ou a análise de um a personagem de José de Alencar.
      Estas são as primeiras anotações do Bardo. Rascunho de canções que espero cantar por muitas luas. 

sábado, 27 de fevereiro de 2010


O El Niño está atuando de forma poderosa sobre este planeta. O aquecimento das águas do Oceano Pacífico tem demonstrado seus efeitos alteradores dos padrões de clima desde o final de 2009. Grandes massas de ar se deslocam verticalmente e m descida sobre o nordeste a da América do Sul. E quão pequena surpresa ao percebermos que nosso estado está justamente debaixo deste fluxo de ar que eleva as pressões e impede a chuva.
Indiscutivelmente o El Niño tem atuado de uma forma muito social por estas bandas, chegando mesmo a incitar um senso de verdade nas pessoas. Isto porque ao estarmos sem assunto durante uma conversa ou mesmo não tendo assunto para iniciar uma, apelamos para as infames observações meteorológicas e perguntamos: tá calor né? - Desta forma, em vez de um simples mote brega para uma conversa ou até mesmo desconversa, passamos a ressaltar uma característica real de nossa climatologia.
Graças as quentes águas pacifistas, as pessoas conversam mais, tem mais assunto. Interagindo por conta do calor, muitos passam a se reconhecer no outro, quando nos encontramos em algum ônibus e juntos, todos, passamos por todo o desgaste de uma viagem com a mistura entre o calor humano e o solar.

Cada um no seu quadrado.


A primeira semana no curso de Filosofia foi interessante e estranha ao mesmo tempo. Foi interessante pela simples e complexa novidade que foi a volta as aulas. Foi estranha pelo mesmo motivo.
A segunda-feira trouxe uma realidade dura e diferente do que a maioria de nós, alunos, havíamos cosntruído para todo o período do curso. E digo isto com a certeza de quem fez investigações suficientes para chegar a esta conclusão.
Através de diversas perguntas que discretamente fui dirigindo aos demais alunos, fui gerando uma idéia do que seria comum as percepções de todos.
Houve grande dificuldade de obter respostas. Muitos diziam que ainda era cedo para se ter uma opinião sobre as aulas, professores, conteúdo... Mas achava que algum parecer deveria existir. Senão na segunda, que pudessem dizer algo na quinta então. Mas pouco eu aproveitei.
Ao longo da semana algumas discussões surgiram, mas notei que alguns professores andavam meio reticentes em desenvolver os temas. Isto seria bem porque na Filosofia é muito mais fácil achar que se entende algo. Dificilmente isto ocorre num curso de Cálculo. Quando nos metemos num curso de engenharia ou matemática dificilmente surge uma discussão sobre a "verdade" dos conceitos apresentados. Aceitamos cegamente o que é passado. E esta "verdade" é um poder do professor. Na Filosofia é mais fácil que surja a contestação, claro que algumas vezes fruto da ignorância outras da arrogância. Aqui, a "verdade" é poder do filósofo que estamos lendo. O professor fica na posição de veículo daquela idéia.
Pois é, como disse, achei que alguns professores estavam meio que pisando no freio. Talvez poupando-nos de uma morte rápida.
Por isso foi um início interessante e estranho.
Creio que existiriam outros adjetivos mas não estes dois são suficientes para um post despretencioso como este.

Philosophie

Muito curiosos foram alguns dos acontecimentos que ocorreram na noite de hoje. E estes eventos somente me foram propiciados por conta de uma segunda fase de vestibular bem resolvida.
Passaram-se oito anos desde a última vez que, saindo do bloco da Engenharia Química, abandonava minha vida de aluno universitário. Mesmo após tanto tempo, lembro do percurso que fiz desde o Campus do Pici até o terminal do Siqueira. Percurso tal onde fui pensando exaustivamente sobre o que o futuro me reservaria. O único vislumbre intuitivo que tive foi a dor nos pés que poderia eu sentir ao final daquela empreitada.
Ao retornar ao térreo da biblioteca central, no mesmo Campus do Pici, senti-me um calouro. Mesmo tendo a consciência de que não havia qualquer residual da primeira matrícula que realizei na instituição ainda no ano de 1998.
Assim, ao me matricular, era ao mesmo tempo um novato e um veterano.
Como estava dizendo, a noite de hoje reservou a mim impressões novas e saudosistas.
Provavelmente, era a primeira vez em que eu perambulava de forma tão fluida pelos jardins do castelo dos Gentil, conhecido como Reitoria. E esta fluidez era fruto da admiração e de um contentamento latente que carrego desde a aprovação no vestibular.
Tínhamos um evento do curso de Filosofia no auditório Castelo Branco e cheguei um pouco depois do início.
O clima era de excessiva retórica, bem apropriada, na verdade, para o tipo de discussão que seguia. Debate que consumiu mais de duas horas.
Confesso que a cada dia que passa, estou aceitando bem mais as específicas de Português e História para a segunda fase do vestibular para Filosofia. Isso porque tivemos um desfile de português em sotaque alemão e história da Europa, além da própria história do pensamento humano.
Foram minutos divagando entre um ralo entendimento e um entendimento nenhum do que ocorria. Mas entendo muito bem a postura da Coordenação do Curso, quando pôs os calouros a participaram de evento tão rebuscado em pensamentos abstratos e interseções metafísicas. Queriam eles que nós, pobres mortais, ainda envolvidos e embalados pelo “Rebolation”, pudéssemos vislumbrar que existem esferas de entendimento bem mais elevadas e círculos de ciência bem mais sutis e etéreas do que o que pudemos ver um dia na série do Beakman.
Ao terminar o evento, tínhamos salgadinhos nos esperando. Quer dizer, esperando aos outros. Alguns com sutilezas que mereciam teses filosóficas, avançaram sem dó sobre as porções carboidráticas dispostas de maneira tão maneirística, sobre duas mesas que se assentavam à entrada do auditório.
Eu, com minha usual cara de chibata, fiquei ao largo. Como que esperando que alguém viesse me oferecer um quitute, mesmo sabendo que seria impossível que tal coisa acontecesse. Isto por vários motivos: não era professor visitante, não era alemão, estava muito absorto à arquitetura do prédio da reitoria.
Quando iniciei um breve passeio pelos jardins mangueirosos notei que as imagens oscilavam meio magicamente. Como se na verdade estivesse a olhar um reflexo em águas viscosas e que lentamente fossem levadas à dança por um vento frio que escoa de uma montanha nevada próxima.
Estava tão maravilhado com aquela imagem de sonho que não percebi que aquelas ondulações foram aumentando e deslocando meu próprio equilíbrio. De súbito, acordei daquela espécie de transe e percebi exatamente o que gerara o efeito-sonho que se sucedeu. Era fome!
Olhei pra trás e vi que o povo todo se aglomerava junto aos últimos salgadinhos, quem sabe. Sai dali o mais rápido que pude. Fui em busca de milho cozido pelas calçadas do Shopping Benfica.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os anéis da Terra

Alguém com recursos de animação "materializou" um dos meus antigos pensamentos astronômicos. E se a Terra tivesse anéis como os de Saturno?
Saturno é o mais belo planeta de nosso Sistema Solar, pelo menos assim, de longe! E o diferencial são os anéis que encantam os observadores desde Galileu. Mesmo usando modestos telescópios já conseguimos vislumbrar algo "estranho".
Caso a Terra tivesse anéis a visão a partir da minha cidade (Maranguape) não seria tão fantástica assim. Uma vez que eles estariam orbitando alinhados com o Equador, veríamos uma linha estreitinha cruzando o céu de Leste a Oeste.
O video mostra a concepção artística de tais anéis a partir de várias cidades, em vários Continentes.
Segue o link para quem desejar conferir:
http://www.youtube.com/watch?v=UT2sQ7KIQ-E

Crédito: Roy Prol/Youtube.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Manhã do Vestibular

Eu, desde o início, tinha dito a quem quisesse ouvir: - Não estou preocupado com as provas do vestibular! Isto porque pensava estar tentando o concurso de forma despretenciosa, talvez displicente. Fui para a primeira fase traquilo. Recebi o resultado, também tranquilo. Aguardei pacientemente a segunda fase. Ontem (dia 13) fui para a prova no centro de Humanidades da UECE. Cheguei ao local faltando ainda uma hora. Fiquei perambulando por lá, super tranquilo.
Hoje foi a prova de Português e História. Sai de casa despreocupado, mesmo sabendo que iria enfrentar específicas tão "humanas" pela primeira vez. Aliás, é interessante esta história de "humanas". Mas tudo bem, deixemos isso pra depois.
Na rodoviária em Maranguape não notei o movimento dos dias anteriores de prova. Isto porque provavelmente todos já tinham ido. Era um pouco tarde já, mais de 07:00h. Para uma prova que ia começar as 09:00h, no CH da UECE, eu estava com folga no tempo.
No interior do ônibus, depois que saímos, comecei a perceber que o motorista devia estar em um dia muito tranquilo. O tempo que ele levou para percorrer o espaço entre a Rodoviária e a Praça da Prefeitura foi hediondo. Neste momento iniciei meus pensamentos elevados em busca de paz extra. Não que eu precisasse de paz para a prova, não. Eu precisava tentar me manter afastado dos assuntos que se iniciavam no banco a minha frente (vestibular) e da percepção da baixíssima velocidade com que o ônibus contornou a curva da Outra Banda.
Acho que um dos fatores que contribuíam para aquela sensação de desconforto que eu estava experimentando era a inexistência de relógio acessível para que pudesse acompanhar o avançar da hora e poder me programar mentalmente para um esquema de locomoção entre a Reitoria e o CH.
Curiosamente o ônibus foi gradativamente lotando. Poucos eram os estudantes com cara de assustados que seriam vestibulandos em potencial. Ah! Mas nem adiantavam estas análises todas. Eu mesma era um vestibulando e não aparentava muito não. Além de estar um pouco fora da faixa etária comum, estava com trajes meio fora do contexto para meu próprio pensamento em relação a concursos.
Os minutos avançaram muito mais rapidamente que o ônibus. Demoramos exatos 65, 78 minutos para alcançar o SESI da Parangaba. Como havíamos saído de Maranguape às 07:30h, significava que já eram 08:36h quando percebi isto. - Ah! Hoje está tão congestionado! - Disse uma senhora que aparentava estar uns doze mil séculos dentro da poeira. Eu não confirmei, nem sequer fiz menção de responder nada. Estava sendo tomado por um calor gigantesco. O ônibus ali, parado, somente piorava o clima no seu interior dominado muito mais por crianças do que por adultos.
Quando chegamos na altura do IMPARH tive um vislumbre praticamente fatal do que poderia acontecer. Faltavam apenas 15 minutos para o INÍCIO da prova. Eu estava ainda dentro do ônibus da PENHA, proximo a FAC. Tinha que pensar rápido! O engarrafamento havia tingido de azul a João Pessoa. À frente, não havia movimento de veículos. Tudo parado! Naquele momento percebi que seria impossível chegar a tempo. estava muito longe.
Vou descer e correr. Pensei! E justamente neste momento vi que lá fora diversas pessoas corriam, levando suas garrafinhas d'água da Santa Sofia. Era gente correndo pra chegar ao Salesiano, gente correndo pro outro lado para chegar ao Campus 2 da FAC. E eu sendo besta, parado no ônibus?
Vi que um mototaxista acabara de chegar com uma garota. Ele estava contando o dinheiro do troco e ela percebendo o novo cheiro do cabelo. Prontamente, como poucas vezes acontece na minha vida. ORDENEI a abertura da porta do ônibus e pulei. Olha que não foi força de expressão. Pulei! Atravessei pela frente do ônibus, confiando que não morreria porque o trãnsito estava parado mesmo. Naquela secção nem moto passava. Abordei o mototaxista correndo e perguntei se ele estava livre. - R$ 6,00 para a Luciano Carneiro. - Ele disse. - Nós temos cinco minutos. - Disse empregando o tom mais seguro que eu poderia ter.
Nos nanossegundos que se seguiram até cruzarmos pela Carlos Câmara notei pela primeira vez que estava preocupado com o vestibular. A história da despretensão continuava existindo, mas não era da forma que eu pensava originalmente. Durante alguns segundos, no início da viagem de moto, percebi que eu dava importância ao concurso sim. Noti que eu tenho um sincero interesse em ser aprovado e que isto não possui um carater vaidoso ou boçal. Mesmo sem ter me dedicado aos estudos para tais provas houve um desgaste associado. Desgaste este que se tornou bem explícito nas repreensões que sofro quando algumas pessoas descobrem para qual curso estou tentando vestibular.
A sensação de dor na cabeça por conta do capacete apertado me fez acordar. Estávamos chegando a Rua do Canal. Foi quando um primeiro quase acidente nos atrapalha! Um motoqueiro, carregando botijões de gás se assustou com a presença de um velhusco que empurrava um casco de geladeira lotado de papelões. No reflexo o motoca de frente desvia e cai da moto. O veículo permaneceu de pé por conta de sua ligação ao carrinho dos botijões. Eu e o mototaxista também nos assustamos com o susto que o velhusco teve ao notar o susto que deu no primeiro motorista. O susto que eu tive foi, então, quádruplo. Subimos uma das calçadas, desviando de uma caçamba coletora de lixo e aceleramos já alinhados ao canal, no rumo da Luciano Carneiro. O segundo quase acidente foi muito estranho: uma pata e oito patinhos pararam o trânsito bem na altura da Expedicionários. Os animaizinhos pareciam floquinhos amarelos de tão lindinhos. Carros, caminhões, motos, bicicletas e pedestres, todos rederam Graças à Deus por tamanha manifestação da beleza natural, naquela manhã tão conturbada de vestibular. Minha intenção era tirar uma fina nos animais e seguir viagem, mas o sinal estava fechado.
Lembro agora que foi bem nesta hora que imaginei um cortejo de Circo cruzando nosso caminho, com aquelas animadoras belíssimas que causariam algum transtorno no trânsito, jumentos alados, elefantes se equilibrando em rapaduras e encantadores de tijubinas. Ainda bem que nada disso aconteceu. Quando tornei estávamos estacionando em frente ao CH. Não havia quase ninguém lá fora. Apenas aquelas mães gordas por trás dos volantes e os tradicionais vendedores de água. Com o dinheiro coincidentemente já trocado paguei ao mototaxista. Estava com a adrenalina a mil. Parecido com o dia que tive que mergulhar num rio cheio de cipós.
Comprei água (meio desnecessário). Entrei faltando ainda cinco minutos para soar o sinal.
Notei uma certa expressão de desânimo em alguns candidatos da minha sala quando entrei.

O Peixe Mamífero

A Feira dos Pássaros em Fortaleza, é conhecida por oferecer quaisquer tipos de produtos. No meio daquele monte de gente, todos os domingos, é possível comprar ou vender qualquer coisa. Os exemplos vão de caixas de ferramentas para celulares, até hamsters. De pele de bode à roupa de cardeal e assim vai.
Então lá seria o lugar mais que indicado para eu iniciar a aquisição dos materiais para meu novo hobby, o aquarismo. A regra é não chegar na feira muito cedo. Assim você pode aproveitar as promoções de queima de estoque. Depois de atravessar o “setor” de eletro-eletrônicos (onde pude até ver um televisor National, igual ao que existia em minha casa, ainda no século passado), cheguei ao refúgio dos animais da feira. Sinceramente sentia-me num misto de Jurassic Park, a Ilha do Dr. Monroe e Cocoricó. Os peixes ornamentais são os bichos mais vendidos lá. E existem para todos os gostos. Percorri os corredores apertados procurando um bom aquário, pelo menos que me inspirasse confiança. Encontrei uma barraca muito organizada que vendia tudo para aquarismo... Iniciei minhas pesquisas, conversando com o vendedor. E logo me decidi em levar um PEQUENO aquário para vinte e cinco litros. (Lembrara que ainda voltaria pra Maranguape de ônibus). Quando fui passando noutra barraca um pouco a frente, chamou-me a atenção uma garotinha que se aproximava com seu pai. A pequena devia ter uns dez anos. Não sabia para onde olhar, com tantas atrações. Assim que conseguiu esticar o pescoço por sobre alguns sacos de pedras, numa barraca que vendia Peixes Betta perguntou: - Hei? Eu quero comprar um peixe, um aquário e a comidinha do peixe. Quero um peixe bem bonito, coloridinho, que goste de comer, porque o outro que eu tinha morreu de fome. – O vendedor olhou-a com um ar de admiração e se aproximou da menina. Resolvi parar, fingindo interesse em algum produto ali. – Pai. Aqui tem peixinho. – O pai da menina parecia extremamente cansado. (Já devia ter andado aquela feira inteira. A menina fazia o tipo que a menos de dez minutos, estava querendo levar um puddle pra casa). – Este peixe! – Ele apontou pra um peixe avermelhado dentro de uma garrafa de água mineral. – Ah! Esse aqui é um peixe de briga! – E mal terminou de falar... – Êh! Peixe de briga! – A menina ficou encantada com a informação. – Não, Aninha. Peixe de briga não. Vamos comprar um peixinho mais calminho. Pra ver se você se acalma também. – Tenho certeza que a Aninha nem ouviu. – Pai, compra um aquariozinho pra ele também. Olha! Tem aquele com uns espelhinhos. – Ela já estava do outro lado do pequeno balcão, nas pontas dos pés, esticando os braços para alcançar um objeto todo de vidro. – Ah! Eu vou dar comida todo dia pra ele ficar forte e brigar bem muito. – Nesta hora não resisti e deixei escapar um risinho. O pai da menina olhou pra mim e trasmutei o riso irônico num sorriso simpático e solícito, de certa forma. – “Vamo” Pai. – Forçou o velho a se aproximar um pouco mais. - Hei! Rapaz. Eu quero um peixe, um aquariozinho de espelho e um saquinho de comida. – Logo ela puxou do bolso uma cédula tão dobradinha, que não consegui perceber qual era o valor. O vendedor estava separando o aquário, quando abriu um sorriso. Notei que ele se inspirou... Ora, ele estava ali para vender seu “peixe”. – Pronto! O aquário e o peixe (o coitado ainda estava agora dentro de um saco plástico transparente). – Ele evidentemente fez um gesto bem exagerado quando colocou os “produtos” no balcão. O velho estava tirando a carteira do bolso para o pagamento, quando a menina falou nervosa: - Ele vai morrer de fome! Cadê a comida? “Taqui” o dinheiro. – Estendeu uma cédula de cinco reais, perfeitamente dobradinha. – Ah! Esse peixe é ótimo. Ele não come comida pra peixe não! Ele come isto aqui! – Mostrou um potinho plástico, cheio de um pó branco. Nesta hora fiquei intrigado, vejamos: aquele era evidentemente um peixe. Existe uma enorme variedade de comidas para peixes. Algumas até feitas à base de peixes. Mas isso não é problema. Nós mamíferos nos alimentamos comumente de outros mamíferos. Então o que aquele peixe comeria se não fosse comida pra peixe? – Ele come leite! – O rapaz falou tão baixinho, pertinho da menina, que só percebi o que ele falara porque li seus lábios. – Peraí... Agora era demais! Primeiro o cara diz que o peixe não come comida pra peixes. Sendo que qualquer comida que o peixe comesse seria automaticamente: comida para peixe. Mas que na verdade o peixe "come" leite... Então eu tinha acabado de encontrar um Elo Perdido. Vejamos! Segundo a teoria Evolucionista: Os peixes geram os anfíbios, que geram os répteis, que geram as aves, que por sua vez, geram os mamíferos. Mas naquele momento, segundo o vendedor, estávamos diante de um Peixe-Mamífero. – O quê? – O velho interessou-se pelo assunto. – Que diabo de peixe é esse que come leite? – É... Esta “raça” de peixe só come leite. – Aqui o vendedor olhou para mim, desconfiado. Ele havia percebido que tinha ido longe demais. O pai da menina a qualquer momento iria estourar... Ele já estava pagando vinte reais por um aquário para meio litro de água e um peixe betta ( O que era absurdo). Aqueles eram itens normalmente baratos naquela feira. – Rapaz eu sou pescador! – O velho senhor falou estufando o peito e suspendendo com certo esforço, a barriga proeminente. – Pronto! Agora fedeu! Vou ver uma briga agora. – Você quer dizer que ele come leite além da comida normal dele né? – Por trás da gente passaram alguns meninos correndo em disparada. Algum roubo, pensei. Minutos depois saberia que tinha sido um roubo sim. Estavam levando um aparelho de DVD portátil. – Não senhor. Ele só come leite. Quer dizer, nesta idade ele come leite, mas quando ele é novinho, aí não. Ele mama! – Parênteses: (Também conhecido como “peixe de briga”, esse peixe da família dos Anabantídeos é originário da Tailândia. Seu nome vem de uma tribo de índios, onde os guerreiros eram chamados de “Bettahs”. A alimentação dos Bettas deve ser feita com a comida, em forma de ração, encontrada nas lojas especializadas, com comidas vivas, como as artemias e até mesmo com gema de ovo cozida, mas isso deixa a água extremamente suja, A LITERATURA ESPECIALIZADA NÃO CITA LEITE!). – Rapaz! Que mentira!? Eu sou conhecedor de várias espécies de peixes! – O velho deve ser Biólogo aquático! Pensei. – Sou pescador, meu amigo! Passa logo meu troco e inclui um saquinho de ração. – Ele já estava meio nervoso. – Meu senhor. O senhor já pescou na Tailândia? – O vendedor até usou uma voz grave e pausada, quando perguntou. – Sei nem onde é Tailândia! – Respondeu meio desconfiado, o desconfiado. – Pois é. Este peixe vem da Tailândia. Mas o senhor não sabe que baleia mama? Golfinho também não mama? E não são peixes? – Velho truque do argumento sem futuro, mas dito com segurança. – É mesmo! Eles mamam mesmo. – Nervosismo eu não notava mais, no tom com que o “cliente dos sonhos” para qualquer “vendedor esperto”, falou. – Então é isso. Agora não pode ser leite de marca boa não. Tem que ser aquele tipo que quando bota na água ele faz bolota. – Era serviço completo mesmo. Mas só então percebemos que a Aninha não estava mais por perto. Ela estava em outra banca, encantada com os canários e periquitos australianos. – Hei! Ana!? – O pai da menina esbravejou. Ela chegou eufórica. – Pai, compra um papagiozinho daqueles pra mim? – Tenho certeza que eu, o vendedor e o pai dela pensamos a mesma coisa juntos. – Não, não quero mais o peixe não. Quero o papagaio. É legal porque ele fala! Esse peixe nem fala! – O rapaz já estava recolhendo o aquário e recolocando o peixe num tanquinho. Foi quando o velho disse baixinho: - Não! Eu vou comprar! Vamos levar é o peixe! Vou mostrar pro povo lá de casa. O peixe. Ah! E me dá um potinho do leite do peixe. – Aninha prontamente mudou de idéia. Já estava feliz novamente. Até hoje fico imaginando a meiguice que deve ser ver um peixinho novinho, mamando!

Preciso Acordar!

Após vários anos de treino, alcancei um elevado grau na arte de dormir em ônibus. E por considerar isto uma arte, trato de exercitá-la sempre. Mesmo sob as condições mais adversas e ignóbeis. Como a de viajar nos ônibus das empresas que trafegam entre minha cidade e Fortaleza.

Mas não foi sempre assim. No início de minhas viagens, nas Eras dos 90, ficava o tempo inteiro desperto.

Decifrando as escritas exóticas atrás dos bancos adquiri o sentido da posteridade (entidade tão desprezada no atual contexto informatizado). Observando as caixas de acerolas aprendi o senso do apreender (qualidade desvalorizada no vigente ambiente do descartável). Admirado com a superlotação absorvi o conceito da união (objeto desprezado nestas paragens africanas).
Assim, fui elevando meu sensor sentimental. Polindo meus dotes filosóficos, somando imagens e idéias; ficando de saco cheio de ver as mesmas caras todos os dias. E eram caras feias.
Isso tudo teve seu limite. Logo, tive que criar maneiras de entreter-me durante aqueles transcursos semi-intermináveis.

Historicamente desde o advento do ônibus, a viagem Fortaleza-Maranguape demora uma hora. Mas isso não é uma regra. Alguns intrépidos motoristas arriscam suas vidas, numa demonstração de sangue frio e habilidade, dirigindo veículos sucateados a mais de cem por hora. Isso propicia uma evidente redução no tempo do itinerário. Outros, porém, guiam seus “carros” com a doçura de um Morgan Freeman em Conduzindo Miss Dayse. Confesso que quando isto ocorre nenhum passageiro torna-se disposto a encarnar uma Dayse. Então resolvi ordenar os motoristas dos mais rápidos aos mais lentos. Isso me ocuparia nas viagens, cheias de tomadas de tempo parciais, ajudando-me a definir os melhores horários e “chofers” para que eu próprio perdesse menos tempo nos ônibus.

E assim fiz! Por três meses levantei dados, preenchi planilhas, organizei tabelas, calculei médias e desvio padrão; modas e distribuição normal; criei interseções de dados fantásticas que muitas vezes nem eu sabia interpretar. Mas cheguei a uma conclusão: aquilo tudo não servia pra nada!

Depois da frustração do meu “ranking da velocidade” parti para a literatura. Passei a comprar um cem número de livros e pedir emprestado outros tantos com o intuito de ocupar-me. A leitura seria uma saída duplamente satisfatória. Uma vez distraído, absorto nas idéias de autores diversos não veria o tempo passar e quando menos esperasse lá estava eu chegando ao centro da capital. Não foi assim! Meu subconsciente marcava cada intervalo, cada curva, cada marcha mudada e o ruído de fundo que era alto demais acabavam por me distrair, tirando o mérito da leitura. Eu ficava enjoado e com dor de cabeça, desmotivado para permanecer lendo.
Dias depois estava eu correlacionando a angulação da luz solar através das janelas dos ônibus com a precessão dos equinócios. Avaliando como a resistência do ar se alterava a partir do número de janelas abertas. Verificando o efeito Doppler na Av. Osório de Paiva. Calculando a velocidade de queda dos pingos de chuva medindo a tangente entre tal velocidade e a velocidade do ônibus. Comprovando o poder de meu Anjo da Guarda por me proteger da morte num ônibus em altíssima velocidade.

Quando já aceitava o tédio das viagens houve um sinal de mudança. O livro “The Search for Bridey Murphy” de Morey Bernstein me deu a resposta.

Foram anos de condicionamento auto-hipnótico. Foram meses de buscas numa época em que não existia a Internet como nós a conhecemos. Artigos sobre como hipnotizar galinhas. Teses sobre Mesmerismo, Magnetismo animal e seitas tibetanas. Dedicação e disciplina alimentadas por um objetivo nobre: dormir no ônibus.

As maiores dificuldades residiam no tempo para o efeito. No início das experiências auto-hipnóticas eu demorava muitos minutos até atingir um nível satisfatório de relaxamento. Mas eu precisava encurtar este tempo para pouquíssimos minutos. Treinei. E assim foi. Consegui um sono rápido, com sonho e tudo. Um paradoxo entre estar relaxado e rígido (não pretendia cair no colo de ninguém). Uma proeza dormir em um lugar tão barulhento e desconfortável.

Hoje me sinto bem mais imune ao Forró, aos solavancos, às caixas de acerolas, ao Sol e a chuva; à lotação e aos engarrafamentos. Eu durmo! E sonho com a decência que nos falta. Sonho com um preço justo das passagens. Sonho com o cavalheirismo e o respeito.. A janela não oferece a paisagem bonita. Os passageiros refugiaram-se nos seus fones de ouvido. Temendo o isolamento crescente acabei por me isolar.

Acho que tenho que recondicionar minha mente. Preciso acordar! Faltou verificar como o efeito da alta velocidade altera o desenvolvimento dos fungos na tapioca.